segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Maioridade x Minoridade (Kant)



O filósofo Kant provoca, através de seu pensamento, alguns desconfortos. Ele define a maioridade como a capacidade de decidirmos o rumo da nossa vida segundo nossa própria deliberação racional.  E a minoridade como o atributo de deixarmos os outros decidirem o rumo da nossa vida.

A pergunta que fica é: por que as pessoas quase nunca agem de acordo com sua maioridade?

Aposto que uma das razões estaria no fato de que se seguirmos apenas nossas opiniões podemos facilmente “nos meter em apuros”. Não se deixar levar pelos outros na sociedade tende a ser muito perigoso. Assumir o risco pelas nossas escolhas é um preço que nem todos estão dispostos a pagar. Até porque se fossemos mais fieis com nossas convicções não iríamos tolerar situações que vão se enfileirando no nosso dia-a-dia.

Agir com maioridade poderia ocasionar abandono do emprego, rompimentos familiares e conjugais. Sendo mais radicais, acabaríamos, quem sabe, em isolamento pleno.

A zona do conforto estaria nesse impasse. Prefiro abrir mão da liberdade para não entrar em conflito e ter aprovação afetiva e social. Sigo as convenções que não condizem com o que eu sinto e penso, porém tenho segurança e estabilidade para viver. Ou nessas condições seria sobreviver? Realmente é um conflito complexo.

Viver com maioridade requer um preparo interno gigantesco, pois o risco de sermos rechaçados e ficarmos a sós com a nossa liberdade é bem real. Pense você: como você viveria se levasse a vida somente pelas suas próprias decisões? Valeria à pena pagar o preço?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Espinosa



Espinosa
E a potência de agir
Uma energia oscilante
Que permeia o existir

Uma sucessão de encontros
Alegrias e tristezas
Transformações sem fim
No afeto, a riqueza

A morte é uma simples queda
Uma passagem pequena
O momento é inédito
Numa movimentação plena

Ninguém sai incólume
Ininterrupto viver
Controlamos quase nada
Entregues ao frenético acontecer

Deus é o todo
Nós somos parte
Morremos
Por tanto nos encontrar
Comer, beber, transar, fazer arte...

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Amor tecido



Amortecido
Tecido, o amor
O amor tecido

No amor ter sido
O amor, nu tem sido
Ter sido nu, amor

No amor, amortecido
Tecido, amor nu
Ter sido tecido
No amor nu



sábado, 10 de outubro de 2015

Vida acanhada


Ausência de encanto

Frustração nos encontros

Alegria escassa

Vitória do dever

 

Ódios imperam

Ternuras minguadas

Vida acanhada

Em um breve entorpecer

 

Solidão gregária

Diálogos espelhados

Afetos náufragos

E a experiência a se corroer

 

Asfixia relacional

Sombras entrelaçadas

Intimidade impessoal

Alienação no conviver

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ser transportado


Trem descarrilado

Ônibus lotado

Máquina sem combustível

 

Corpo extenuado

Sonho despedaçado

Passageiro invisível

 

Sentado no assento

Fervilhando pensamentos

Num trajeto inatingível

 

Ouvindo uma canção

Digerindo a frustração

Desse cotidiano possível

 

Em cada parada, calado

Esse irônico ser nada... transportado

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Atenção!


Podemos dizer que a atenção, em termos gerais, é uma capacidade fundamental para desenvolvermos tarefas do nosso cotidiano de maneira satisfatória.

Porém uma relação pouco estabelecida é entre a atenção e a felicidade. Essa conexão não aparece geralmente, acredito eu, por estar situada de maneira muito sutil na nossa experiência.

Pense em momentos relevantes de sua vida. Você viveu -os de corpo inteiro, sem contar as horas para aquele instante acabar. O grau de atenção está intimamente ligado ao nível de interesse que está se investindo naquele momento. Quanto mais sentido extraímos do vivenciado, mais atenção empregamos no aqui e agora. O contrário também é verdadeiro.

Quando algo não me afeta, não me desperta o interesse, automaticamente não presto atenção. E quanto menos atenção, maior a chance de eu não estar gostando do que estou vivendo naquela hora.

Digo isso para lançar uma hipótese sobre o nosso contexto atual. Creio que existe uma tendência social intensa buscando fragilizar nossa capacidade de atenção, e, por conseqüência, nosso potencial de ter experiências alegres. O enunciado desse tempo é: “quanto mais coisas faço simultaneamente, mais adaptado estou para enfrentar o mundo tecnológico que se apresenta”.  Entretanto, os prejuízos advindos dessa exigência são marcantes.

Estamos desaprendendo a prestar atenção de maneira integral e a conseqüência óbvia é que nos tornamos cada vez mais desgostosos com aquilo que estamos fazendo e sentindo.

Estar atento significa, antes de tudo, priorizar. Priorizar implica em efetuar escolhas. E fazer escolhas nos causa considerável angústia, pois, ao optar por algo, passo a me responsabilizar por sucessos e desventuras que possam ocorrer no caminho que decidi trilhar. Porém se eu não escolho acabado tirando o brilho da minha experiência, mergulho na “piscina da vida” apenas colocando a ponta dos pés.

Prestar atenção em muitas coisas traz como conseqüência um envolvimento parcial, fico com a impressão de que quase nada me transforma de fato. Daí a freqüente sensação de vazio existencial, geradora de tantos sofrimentos para as pessoas nos dias de hoje.

E para lidarmos com esse vazio usamos como estratégia ficar mais dispersos e divididos. Internet, televisão, rádio, celular, vídeo, tudo ao mesmo tempo. As gerações que estão chegando parecem não saber se entregar por inteiro ao presente, sem perceber que a chave de uma vida vibrante e intensa está em vivenciar radicalmente o momento. Pois é só ele que existe.

Ler apenas o livro, trabalhar somente, escutar ou fazer uma refeição com atenção plena, degustar e se arrepender pelo momento que optou viver deliberamente. Não é à toa que o déficit de atenção e a depressão sejam patologias tão em voga na atualidade. Estão de mãos dadas praticamente, diria eu.

A conclusão que podemos chegar é óbvia: “melhor uma tristeza inteira do que uma alegria fracionada, minguada, esquálida”.

Não digo isso de nenhuma forma me excluindo, justamente escrevo esse texto para poder tentar mergulhar e transcender esse mundo que diariamente tenta me tirar a potência e me oferece subterfúgios infinitos para desvalorizar o meu aqui e agora incessantemente. Estou tentando não embarcar nessa.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O melhor é o que há por vir...


O melhor é o que há por vir

A vida não vale em si

Estamos em uma preparação

Que ignora o existir

 

Futuro e passado

Como formas de sentir

Se o momento é vazio

O motivo nunca esteve aqui

 

A fuga do presente

Eterno adiamento

Ideal inatingível

Como rota de padecimento

 

A mente e suas distrações

Para evitar o encontro

Nada é agora

Apenas transitando

Temporariamente

Em um corpo...morto

 

Sinceramente?

Acho pouco...