terça-feira, 9 de junho de 2015

CORparte


A rotina perdura

O olhar perturba

Na retina surda

 

Amor vislumbra

Corpo insufla

Destino surfa

 

O ato cura

Quando a dor não luta

Consciência curta

 

A arte exulta

Sem criar, penumbra

O organismo surta

 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Política familiar


Ouvimos muitas vezes pessoas queixando-se da sua família. Se o assunto central das terapias envolve desconfortos com a família, por que será que ninguém se insurge contra esse tipo de estrutura emocional e social? Por que ninguém busca oxigenar as relações familiares e reformular os vínculos sociais? Tornar os laços familiares mais frouxos e menos absolutos? Por que pensamos na família apenas quando ela explode para toda a vizinhança? Por que a família não é motivo de teorias e intervenções políticas?

A criação familiar, centrada em pouquíssimas pessoas para se amar, reproduz eternamente a noção de que intimidade é algo para poucos, ou quase ninguém. As conseqüências já são sabidas e vivenciadas. Temos medo de nos entregar, de conhecer os outros, de forma verdadeira e amorosa. Amar é algo que nos dá medo, só esquecemos onde esse medo foi ensinado e reforçado.

Amar mais de uma pessoa não é possível na sociedade ocidental.  O amor tem que ser único e eterno,  geralmente direcionado para uma só pessoa. Porém os conflitos e sofrimentos existenciais nos indicam que não parece ser assim que sentimos de fato.

Ao invés de assumirmos que as relações são menos óbvias e lineares quanto queremos aparentar, reproduzimos diariamente falas e atos que nos aprisionam e limitam emocionalmente. A visão ainda reinante de família afeta negativamente nossa forma de existir.  Não sabemos muito bem quando foi que começamos a pensar que os “lá de fora são perigosos”. Perigosa é a sociedade que enfatiza tanto a família, “o nosso lar”, o valor a quem é “sangue do nosso sangue”. Pensar que os laços vão além do biológico é um prenúncio de uma sociedade menos preconceituosa e autoritária.

É importante perceber que essa “intimidade única” propagada na família é o passo seminal para os autoritarismos futuros. Onde será que as pessoas aprendem a dominar e chantagear umas as outras? Temos a noção retrógrada de que a família é intocável. Que as coisas que pai, mãe e filho fazem não podem ser colocadas nunca em questão. A miséria de muitas pessoas reside nessa crença, na qual o poder ainda é exercido de maneira indiscriminada. “Mãe é mãe, tem que respeitar”, independente o quão carrasca ela seja. A célula de submissão está aí. Muitos querem ser pais não para criar e deixar o filho viver, e sim para poderem exercer o poder a qual foram submetidos durante a infância.

Por outro lado uma criação que seja horizontal e despreendida pode sim formar pessoas menos subservientes ao sistema. E essa maneira de educar e se relacionar está longe de não ser afetiva. Esse é outro engano muito comum, muitas vezes usado a exaustão nos relacionamentos: “eu te amo, por isso você precisa acatar o que eu quero, você precisa obedecer quem te quer tão bem”. E mais adiante não irá ter terapia ou sociedade que seja saudável. A chave que explica o motivo de poucos se rebelarem reside no fato de que não percebemos que estamos submissos, em grande parte, emocionalmente ao sistema.  Racionalmente já teríamos nos libertado das injustiças cometidas a nós.    

É nesse ponto que eu acredito que a política formal naufraga como ação de emancipação. Queremos questionar os deputados, senadores e outros mandantes eleitos. Mas estamos encalacrados até o pescoço com os autoritarismos vividos nas nossas relações afetivas. Dessa forma nossa libertação é apenas uma idéia, nunca uma prática.

Dizer não ao governo é relativamente fácil nos dias de hoje, agora seguir um caminho próprio e autêntico, independente do que sua família e amigos vão dizer é que são elas. Não adianta gritar por liberdade nas ruas da cidade e exercer tiranias dentro de casa, na cama, na cozinha e no trabalho. Ciúmes, brigas e repetidas discussões de casal e família.

Para mim é líquido e certo que a verdadeira revolução começará a partir das microrrelações, de um ponto onde poucos acreditam ser a gênese da transformação social.  E de fato desacredito em qualquer organização política e social que não enfrente ferozmente esses temas abordados nesse texto.

O poder só se quebra a partir da adoção de postura amorosas e libertárias em cada momento vivido.  Primeiro isso, depois o resto virá, sem dúvida.

 

 

 

sábado, 16 de maio de 2015

Estratégias existenciais


Momentos da existência

Onde é preciso

Suprimir e simultaneamente

Sustentar

Sua essência

 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Política vital I


Ouvindo as pessoas em suas opiniões sobre política percebo o quanto existe uma face totalmente obscura e não esclarecida desse fenômeno. Quem sabe não abordada justamente por se temer o impacto que ela teria no nosso meio.

Política é algo maçante, chato e horrível para a maioria dos brasileiros. É algo que não traz prazer nenhum para ninguém. Mas por que esse sentimento tão comum? Tenho um palpite.

Creio que a política foi retirada do seu palco principal: a nossa experiência cotidiana.

Não pensamos que a política se faz através das nossas atitudes pessoais e/ou emocionais. Para inúmeros isso não é política. Cada dia convenço-me do contrário. A política autêntica só pode emergir através de uma revolução autoral do ser. Isso quer dizer, uma renovação emocional, corporal e relacional de cada um de nós.  

A revolução só pode ser feita a partir das nossas ações. A concepção reinante prega o reverso: vamos escolher alguém para fazer por nós, a democracia representativa. Quer dizer que a verdadeira política deixa a maioria das pessoas de fora das discussões e ações importantes?

Quando começa a revolução? Quando reinvento meu modo de ser e estar com os mais próximos. Se pensarmos na profundidade dessas atitudes certamente ficaríamos aterrorizados, porque isso implicaria em grandes riscos.

Porque isso significaria questionar e não seguir estritamente a família, amigos e instituições com as quais nos vinculamos.  Fazer coisas que rompem, às vezes de maneira drástica, com as expectativas fomentadas durante a nossa trajetória por pessoas fundamentais na nossa vida.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Repressão transcendental 2- desconexão e individualismo


A repressão transcendental gerou, principalmente no ocidente, um fenômeno muito curioso: religiões que não almejam o religar, a busca por algo inefável, e sim doutrinas que pregam a desconexão do sujeito com o todo. Religiões que incentivam o triunfo dos vencedores perante os de “pouca fé”.  Crenças intolerantes com os desviantes.

A ausência da espiritualidade se reflete na nossa organização social: altamente belicosa, desconfiada do outro e desprovida de empatia. Na medida em que as pessoas não são incentivadas a se conhecerem melhor, reina o mecanismo da projeção dos sentimentos, o errado é sempre alguém que não eu.

Nosso caldo cultural torna-nos inexoravelmente inconscientes de nossos desejos e intenções. Vivemos temendo os nossos sentimentos, que por não serem aceitos e compreendidos, viram desajustes emocionais, tornando nossas relações interpessoais um desastre anunciado.

A busca espiritual não nos salva totalmente do caos em que estamos imersos. Não mesmo.  Mas o desenvolvimento de uma caminhada interna torna-nos mais empáticos com o outro e com uma melhor relação com o coletivo e com a natureza. Vamos adquirindo a noção de que estamos interligados com o universo de uma forma inexorável. As relações vão apontando pedaços do nosso quebra cabeça afetivo e espiritual. Vamos descobrindo que afetamos o nosso contexto de maneira contundente, tanto pro bem como pro mal, aumentando nossa responsabilidade e liberdade.

Espiritualidade é um fenômeno que pode muito bem pertencer à esfera do cotidiano. Não como uma ilusão que nos aliena, mas como uma busca por sermos melhores a cada dia e diminuir o sofrimento que nos marca diariamente. Não se limitar ao nosso cotidiano, buscar respostas para além do que vivemos conscientemente. Chegar à conclusão de que somos únicos e por isso mesmo nossa contribuição é fundamental para o todo. Quando percebemos que somos parte de um todo, identificamos nesse todo coisas nossas também. Percebemos que a maldade não pertence só ao outro, assim como a conclusão de que a bondade não é uma qualidade exclusivamente nossa. Olhamos nossa vida de forma mais humilde e as relações tornam-se mais fraternas, pois vou deixando de temer o desconhecido que o outro me traz a cada momento.  

Acessar uma dimensão transcendental acentua nossa racionalidade, porque conseguimos perceber que a razão possui um limite e que negar esse fato pode se tornar extremamente danoso para a nossa sanidade.

Enxergamos nossas limitações com mais clareza, tendo assim muito mais possibilidade de superá-las. Em algum momento da nossa existência perguntamos se o que vivemos faz sentido. A espiritualidade não nos dá essa resposta, mas através do autoconhecimento ficamos fortalecidos para lidar com as nossas fragilidades e incompletudes. A dor vira entendimento, e isso faz toda diferença. Para mim e para o universo.

terça-feira, 31 de março de 2015

Repressão transcendental


O avanço galopante da ciência nos impôs, simultaneamente, ascensão e queda. A cada dia inventamos técnicas de aperfeiçoamento do corpo e das nossas condições materiais. Por outro lado negligenciamos cada vez mais nossa dimensão transcendental. Isso acarreta muitas consequências e sofrimentos que se manifestam no cotidiano.  Engana-se quem afirma que a maior repressão ocidental se refere ao corpo. Na verdade ele é mais pervertido que reprimido. A espiritualidade é tão reprimida que é quase nula nas reflexões cotidianas. Quando surge geralmente tem um viés pragmático e finalista. A expansão de algumas religiões nos indica essa tendência. Hoje adere-se a uma crença religiosa com a esperança clara de mudança na situação material. Reza-se para ter saúde, sucesso, dinheiro e relações afetivas. A espiritualidade, como algo íntimo e singular, está definitivamente fora de pauta. Pensada como meio de nos conectarmos com uma dimensão transcendente então, nem pensar.

A espiritualidade ocidental está mais a serviço do ego do que com o objetivo de superá-lo e dissolvê-lo. Nos apropriamos dela tal qual uma ferramenta, quando ela que deveria se apropriar de nós, tomar-nos de assalto. Pode se dizer que há uma repressão de sentido maior, a nossa existência se coloca unicamente no aqui e agora, ignorando a subjetividade contida na materialidade.

Estudos científicos são desenvolvidos freneticamente para poder colocar a espiritualidade como algo válido e permitido, tirando a aura "mística" que a revestia em épocas anteriores. A espiritualidade só tem valor perante a ciência quando palpável e aplicável. Ao invés de ser um caminho possível quando nos questionamos sobre o sentido da vida concreta, somos espirituais para reafirmar que a vida é a interminável busca de obtenção de entretenimento e fruição da matéria.  Nossos hábitos e relações tornam-se ocos. O viver é uma sucessão de rituais vazios, sem um significado maior.

O biologicismo fica tão exacerbado que joga o sujeito muitas vezes para a depressão, considerada um dos males do século. As adicções são exemplo dessa repressão transcendental.  Na medida que a distração se esgota não temos muito o que fazer, parece que chegamos no fim da jornada, os sentidos estão na máxima estimulação, não há nada novo para sentir. O tédio também é um dos sintomas comuns do nosso tempo, tudo já foi feito e experimentado. Poucos se dão conta que é nesse momento que a espiritualidade grita em nosso interior, pois o externo já foi transformado de diferentes maneiras. É chegada a hora de tocarmos em algo que está muito perto, mas quase inacansável ao mesmo tempo: nossa dimensão espiritual.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Fusão e fricção


Minha diversão é bem ou mal criar

Com a fusão dos meus demônios

E a fricção dos meus neurônios

Anarquista da vida vulgar