Kátia e Ricardo eram colegas de aula. Estavam próximos e cada vez que se enxergavam todos notavam que havia um clima de paixão no ar. Até o Christopher notava isso, aliás, principalmente ele. O Ricardo achava que o Christhopher nutria algum interesse na Kátia, embora ele nunca tivesse presenciado um avanço real dele sobre ela. O olhar do Christopher para a Kátia e o Ricardo, conversando e rindo, era uma mistura de ciúme, paixão e curiosidade. Passava pela cabeça do Ricardo que, ao invés de vidrado, ele poderia ser viado mesmo. Nunca se deve rechaçar as possibilidades.
- Um baita gay recalcado, com certeza! – exclamava silenciosamente em alguns momentos.
Kátia era um caso a parte. Ela não dava tesão, ela era o próprio tesão. Seu olhar insinuava chama vulcânica, ostentava ambição de ser lasciva com o universo. Roupas, calças, pernas, batons, maquiagens e chiclete. O chiclete, saltitando nos dentes de Kátia, fazia com que muitos alunos passassem mal durante as provas. Ele ia, deslizava na carnuda de Kátia como um patinador no gelo, alegre e esbanjando elegância.
Ricardo era um homem calmo, porém macho e selvagem em essência. Por isso não era de se espantar que tivesse proposto para Kátia uma transa em um lugar isolado na faculdade, o famoso “ninho da luxúria superior”. Todos sabiam, alguns iam e maioria gostava de ficar rindo e sacaneando os casais que lá compareciam.
Naquele feriado nem o professor tinha ido à aula, apenas Kátia, Ricardo e alguns gatos pingados, que foram por razões diversas. O casal pré-copulante poderia até transar em casa, mas onde estaria a graça e a aventura?
Bateu nove horas da noite, os vigias cochilavam prazerosamente e lá estava o cenário ideal para Ricardo e Kátia adentrarem sorridentes no cafofo. Seria no feriado da páscoa que Kátia provaria a cenoura e os ovinhos de Ricardo, com apetite colegial, diga-se de passagem.
Foi a melhor transa que os bisbilhoteiros tinham presenciado. Urros, unhadas, mordidas e gemidos pervertidos. Como todos estavam no cio, a transa dos dois acabou gerando diversos gemidos orgásticos nos rapazes e nas meninas que observavam o evento.
Depois da transa, Kátia foi fumar um baseado, perto do laguinho, para fechar seu dia. Assim ela deixou Ricardo, solitário, pensando nos momentos de satisfação que havia proporcionado para a mulher mais desejada da sala de aula. Distraído e sentindo-se em outra dimensão, ouviu algo que quebrou sua concentração:
- Ela é boa demais, né?
- Christhopher! Quase me mata de susto, o que estás fazendo aqui?
-Só estava admirando vocês (olhar de psicopata). Você fez tudo direitinho.
Ricardo, meio assustado, não deu papo, botou seu casaco azul e resolveu dar no pé. Desejando boa páscoa para Christopher, saiu rapidamente do lugar, para evitar alguma cantada que Christopher ousasse cometer.
Saiu tão apressado que nem deu tchau para Kátia, entretanto teve tempo de formular o grande enigma que aquela noite tinha proporcionado para sua mente: Christopher era gay, tarado, bisbilhoteiro ou apaixonado por Kátia?
Ele não sabe até hoje responder essa pergunta, se tivesse perguntado para o segurança ele teria uma informação inusitada e misteriosa: Christopher era o irmão de Kátia.
segunda-feira, 22 de março de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Política!
Política é um tópico que me deixa inquieto e irritado demais (política, nessa crítica, no sentido de busca de poder passando por cima do outro... leiam até no final porque tento pensar em algum outro sentido para essa palavra ).
Isso porque as pessoas se dividem esquizofrênicamente em dois lados, inconciliáveis. Há exceções, sem dúvida. Os perdidos, confusos ou moderados, talvez se identifiquem comigo nas elucubrações. Não sei por qual começar, de tanta antipatia que desenvolvo por ambos os lados.
Vamos aos engajados politicamente então. Chatos e cegos. Faço esse relato pela observação de muitos grupos, sendo que algumas vezes fui convidado a participar deles. Existem muitos sentimentos negativos nessas associações políticas. Primeiro: a segregação do outro. Quem não veste a minha camisa e não carrega a minha bandeira é o mal personificado em carne e sigla. Quem não está comigo nessa luta que se dane, bando de alienados que não estão como cordeiros ao meu lado. Uma bela maneira de buscar a igualdade social, (se é que de fato seja isso o almejado) fazendo com que haja uma diferenciação extrema entre os grupos que estão posicionados na luta "democrática". Morte àquele que não é eu!
As reuniões são tensas, carregadas de mágoa e ressentimento. A descontração é como flor no asfalto, rara. A estratégias mais usadas não envolvem autocrítica e a promoção de idéias próprias. Ao contrário, são calcadas na desvalorização dos adversários e na expurgação alheia. Na minha opinião o pior defeito dos grupos denominados políticos é não abrir espaço para a alegria, o prazer e a espontaneidade. Eles ficariam surpresos ao descobrir que esses elementos são os mais poderosos na transformação da velha estrutura social. Outra coisa desconfortável é a exigência de que a dedicação à causa seja onipresente e inflexível. A nossa vida pode sim incluir a militância, mas restringir-se somente à ela é imaturidade ao meu ver.
Defender ideais e buscar a adesão das outras pessoas requer habilidade. A intenção pode ser ótima, no entanto a apresentação seca e desprovida de sensibilidade não (co) move nem mesmo a própria pessoa que postula esse ideal.
Outro aspecto é a criatividade nas propostas. É muito difícil ouvir ideias que sejam inovadoras e que incluam a maioria das pessoas na sua execução. Propostas que almejam participação popular são difíceis de serem pensadas, por isso são escassas. O planejamento e a execução de uma proposta política geralmente diz respeito a um grupo muito pequeno de pessoas.
Poucos comandam os caminhos da política. Uns por incapacidade de conclamar o interesse coletivo e outros por puro interesse e safadeza mesmo. Fica uma pergunta: Quem disse que as mudanças sociais só podem ser feitas com sisudez, rabugice e violência? Será que existe uma maneira menos azeda de provocar uma transformação no nosso cotidiano?
O segundo grupo é produto da ação do primeiro. São os desinteressados. Aqueles que pensam que política é um assunto chato, que não se julgam envolvidos no que acontece na sociedade. Os que acham que política é um grupo de ressentidos que tentam adquirir mais poder sucessivamente. Outros que acham que espiritualidade , política e bem estar pessoal são temas inconciliáveis. Seres que assistem o mundo desabar e não fazem nada a respeito. Seja pelo meio ambiente, seja pensando, seja escrevendo, seja gritando, seja sofrendo. Insensíveis a respeito do que acontece fora de suas casas.
Amo minha família, mas não busco melhorias apenas para eles, afinal o mundo não é habitado somente pelos meus ascendentes e descendentes. Mas, infelizmente, com a crescente avalanche do totalitarismo narcísico, (todos vivendo egoísticamente as regras do mercado de consumo) a política é apenas mais um instrumento para o lucro e o poder próprio. Pode-se se dizer que sempre foi assim. De repente os tempos atuais sejam simplesmente mais explícitos e escarrados, vai saber...
A questão é complexa, inicia no próprio conceito do que possa significar política. Para mim política é algo que eu faço em causa própria, que reverbera positivamente nos outros ou então algo bom feito diretamente para o outro e que, dialéticamente, acaba me influenciando benéficamente. Um pouco confuso, mas se parar para pensar é possível encontrar alguma fagulha nessa idéia.
Partindo disso, política envolve quase tudo que se faz na vida. Um esforço contínuo de ser uma pessoa melhor e tentar tornar o mundo melhor por tabela. Se acontece uma relação espontânea de pessoas em busca dessa melhoria, ótimo, porém se for um caminho solitário não tem problema. Até porque ninguém está sozinho nesse mundo, embora muitos se sintam assim.
Captei! No bater do gongo: política é perceber que não se está sozinho na rua, no ônibus, na fila do banco, no universo. Fácil, né? Complicado é agir.
Isso porque as pessoas se dividem esquizofrênicamente em dois lados, inconciliáveis. Há exceções, sem dúvida. Os perdidos, confusos ou moderados, talvez se identifiquem comigo nas elucubrações. Não sei por qual começar, de tanta antipatia que desenvolvo por ambos os lados.
Vamos aos engajados politicamente então. Chatos e cegos. Faço esse relato pela observação de muitos grupos, sendo que algumas vezes fui convidado a participar deles. Existem muitos sentimentos negativos nessas associações políticas. Primeiro: a segregação do outro. Quem não veste a minha camisa e não carrega a minha bandeira é o mal personificado em carne e sigla. Quem não está comigo nessa luta que se dane, bando de alienados que não estão como cordeiros ao meu lado. Uma bela maneira de buscar a igualdade social, (se é que de fato seja isso o almejado) fazendo com que haja uma diferenciação extrema entre os grupos que estão posicionados na luta "democrática". Morte àquele que não é eu!
As reuniões são tensas, carregadas de mágoa e ressentimento. A descontração é como flor no asfalto, rara. A estratégias mais usadas não envolvem autocrítica e a promoção de idéias próprias. Ao contrário, são calcadas na desvalorização dos adversários e na expurgação alheia. Na minha opinião o pior defeito dos grupos denominados políticos é não abrir espaço para a alegria, o prazer e a espontaneidade. Eles ficariam surpresos ao descobrir que esses elementos são os mais poderosos na transformação da velha estrutura social. Outra coisa desconfortável é a exigência de que a dedicação à causa seja onipresente e inflexível. A nossa vida pode sim incluir a militância, mas restringir-se somente à ela é imaturidade ao meu ver.
Defender ideais e buscar a adesão das outras pessoas requer habilidade. A intenção pode ser ótima, no entanto a apresentação seca e desprovida de sensibilidade não (co) move nem mesmo a própria pessoa que postula esse ideal.
Outro aspecto é a criatividade nas propostas. É muito difícil ouvir ideias que sejam inovadoras e que incluam a maioria das pessoas na sua execução. Propostas que almejam participação popular são difíceis de serem pensadas, por isso são escassas. O planejamento e a execução de uma proposta política geralmente diz respeito a um grupo muito pequeno de pessoas.
Poucos comandam os caminhos da política. Uns por incapacidade de conclamar o interesse coletivo e outros por puro interesse e safadeza mesmo. Fica uma pergunta: Quem disse que as mudanças sociais só podem ser feitas com sisudez, rabugice e violência? Será que existe uma maneira menos azeda de provocar uma transformação no nosso cotidiano?
O segundo grupo é produto da ação do primeiro. São os desinteressados. Aqueles que pensam que política é um assunto chato, que não se julgam envolvidos no que acontece na sociedade. Os que acham que política é um grupo de ressentidos que tentam adquirir mais poder sucessivamente. Outros que acham que espiritualidade , política e bem estar pessoal são temas inconciliáveis. Seres que assistem o mundo desabar e não fazem nada a respeito. Seja pelo meio ambiente, seja pensando, seja escrevendo, seja gritando, seja sofrendo. Insensíveis a respeito do que acontece fora de suas casas.
Amo minha família, mas não busco melhorias apenas para eles, afinal o mundo não é habitado somente pelos meus ascendentes e descendentes. Mas, infelizmente, com a crescente avalanche do totalitarismo narcísico, (todos vivendo egoísticamente as regras do mercado de consumo) a política é apenas mais um instrumento para o lucro e o poder próprio. Pode-se se dizer que sempre foi assim. De repente os tempos atuais sejam simplesmente mais explícitos e escarrados, vai saber...
A questão é complexa, inicia no próprio conceito do que possa significar política. Para mim política é algo que eu faço em causa própria, que reverbera positivamente nos outros ou então algo bom feito diretamente para o outro e que, dialéticamente, acaba me influenciando benéficamente. Um pouco confuso, mas se parar para pensar é possível encontrar alguma fagulha nessa idéia.
Partindo disso, política envolve quase tudo que se faz na vida. Um esforço contínuo de ser uma pessoa melhor e tentar tornar o mundo melhor por tabela. Se acontece uma relação espontânea de pessoas em busca dessa melhoria, ótimo, porém se for um caminho solitário não tem problema. Até porque ninguém está sozinho nesse mundo, embora muitos se sintam assim.
Captei! No bater do gongo: política é perceber que não se está sozinho na rua, no ônibus, na fila do banco, no universo. Fácil, né? Complicado é agir.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Outras direções ( relacionamento)
Acabar um relacionamento, seja ele de que natureza for, com um sorriso otimista só me foi possibilitado pelo advento da maturidade. É claro que um término não é motivo para fogos de artifício e cânticos de torcida apaixonados, porém também não é o passaporte para o inferno, como muitos interpretam.
As ligações não dão errado, apenas egostam suas possibilidades. É importante entender que tudo na vida tem um ciclo, nossa própria existência é prova cabal disso. Por que não seria assim nas relações? As pessoas que cruzam nosso caminho nos trazem mensagens, ensinamentos sobre o mundo e sobre nós mesmos. E a permanência da pessoa na nossa vida, de acordo com a minha opinião, só se mantém quando ainda temos algo a aprender e experiênciar através do contato.
Negar que certos relacionamentos estão com sua validade vencida é nocivo para nós e para quem se relaciona com a gente. Ficamos presos a algo que não possui mais a fluidez de antigamente e deixamos a outra pessoa estagnada, causando constantes desentendimentos e aborrecimentos mútuos. Para se admitir isso é preciso ter culhão, decretar o fim de algo nunca é agradável no momento, o alívio só chega tempos depois da coisa feita.
Penso que mais doloroso é dourar a pílula, ficar fingindo que é possível continuar quando na verdade estamos perdendo nossa energia vital a cada segundo que continuamos a conviver com quem não queremos mais. Não existem pessoas erradas, existem pessoas erradas para nós, seres que não se encaixam com nós naquele momento. E não saber isso traz conseqüências severas para nossa felicidade, isso porque deixamos de conhecer outras modalidades de encontro mais criativas e também porque privamos o outro dessa ter essa chance também. Parabéns! Você, com seu apego e medo de arriscar em busca de algo melhor, deixa duas vidas amortecidas e sedadas. Ambos na UTI, precisando apenas da força de vontade para saírem dessa situação. A sabedoria popular e a observação comprovam que preferimos ser infelizes com segurança do que inseguros tendo a perspectiva de obter alegria.
As ligações não dão errado, apenas egostam suas possibilidades. É importante entender que tudo na vida tem um ciclo, nossa própria existência é prova cabal disso. Por que não seria assim nas relações? As pessoas que cruzam nosso caminho nos trazem mensagens, ensinamentos sobre o mundo e sobre nós mesmos. E a permanência da pessoa na nossa vida, de acordo com a minha opinião, só se mantém quando ainda temos algo a aprender e experiênciar através do contato.
Negar que certos relacionamentos estão com sua validade vencida é nocivo para nós e para quem se relaciona com a gente. Ficamos presos a algo que não possui mais a fluidez de antigamente e deixamos a outra pessoa estagnada, causando constantes desentendimentos e aborrecimentos mútuos. Para se admitir isso é preciso ter culhão, decretar o fim de algo nunca é agradável no momento, o alívio só chega tempos depois da coisa feita.
Penso que mais doloroso é dourar a pílula, ficar fingindo que é possível continuar quando na verdade estamos perdendo nossa energia vital a cada segundo que continuamos a conviver com quem não queremos mais. Não existem pessoas erradas, existem pessoas erradas para nós, seres que não se encaixam com nós naquele momento. E não saber isso traz conseqüências severas para nossa felicidade, isso porque deixamos de conhecer outras modalidades de encontro mais criativas e também porque privamos o outro dessa ter essa chance também. Parabéns! Você, com seu apego e medo de arriscar em busca de algo melhor, deixa duas vidas amortecidas e sedadas. Ambos na UTI, precisando apenas da força de vontade para saírem dessa situação. A sabedoria popular e a observação comprovam que preferimos ser infelizes com segurança do que inseguros tendo a perspectiva de obter alegria.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Saber: prazer e saber simultâneo
Saber é prazer e sofrimento ao mesmo tempo. Como é bom descobrir potencialidades, adquirir consciência de que os sofrimentos são contornáveis e de que nada é tão determinante assim nessa vida. Por outro lado é um tormento saber que existem lacunas gritantes que nunca serão preenchidas, expectativas que nunca serão alcançadas, planos que só serão planos. Geralmente o saber implica também em querer passar esse saber adiante, dividir, tanto os conhecimentos bons quanto os maus. Os bons para melhorarmos o mundo, os ruins para amenizar a impotência diante dos fatos. Falo conhecimento mau me referindo a consciência de que existem aspectos negativos na nossa vida.
Muitos acabam enfraquecendo no caminho, pelo peso do conhecimento que adquirem, e buscam então não saberem mais, alienam-se, desligam o botão da consciência. Decidem viver a vida evitando descobertas, querem apenas o gosto do conhecido e do trivial. Ficam mais fixados no pólo maléfico do conhecer, afirmam que nossa consciência é um punhal que despedaça o coração vagarosamente. Como ser feliz sabendo da violência do mundo? Da pobreza do universo ? Da fragilidade do ser? Eu perguntaria: como ser feliz não sabendo de tudo isso?
Realmente não é fácil, vários sucumbem, não agüentam o fardo de saber. É por isso que pessoas diferenciadas são raras no planeta. Boa parte dos sujeitos descobrem algo e se tornam aterrotizados pelo conhecimento, escravo de seus pensamentos. Sua ação paraliza, por tudo aquilo que se acumulou. Escassos são aqueles que, ao tomar consciência, buscam agir, seja da forma que for, mas lutam corajosamente para mudar algo ou, quem sabe, para melhorar uma situação.
Há que se ter o cuidado para não ser um teórico da vida, pensar que o que já se sabe basta. Sempre terão novas situações para balançar nossos valores e crenças. Por isso quem tem medo do saber não está aplicando criativamente o que aprendeu.
Não se canse de saber, descobrir algo é uma dádiva. Embora seja doloroso em diversas situações, a ignorância é certamente mais letal, corroendo a mente e a alma dos corações desavisados. Quando se descobre algo e existe um desejo de superar aquilo que o conhecimento despertou de sofrido, a vida se torna maia rica e nos sentimos mais confiantes para adentrar no universo de corpo inteiro. Pobre daqueles que não querem aprender, e mais lamentável ainda os que sabem que podem descobrir muito mais porém hesitam por temor ou acomodação.
Muitos acabam enfraquecendo no caminho, pelo peso do conhecimento que adquirem, e buscam então não saberem mais, alienam-se, desligam o botão da consciência. Decidem viver a vida evitando descobertas, querem apenas o gosto do conhecido e do trivial. Ficam mais fixados no pólo maléfico do conhecer, afirmam que nossa consciência é um punhal que despedaça o coração vagarosamente. Como ser feliz sabendo da violência do mundo? Da pobreza do universo ? Da fragilidade do ser? Eu perguntaria: como ser feliz não sabendo de tudo isso?
Realmente não é fácil, vários sucumbem, não agüentam o fardo de saber. É por isso que pessoas diferenciadas são raras no planeta. Boa parte dos sujeitos descobrem algo e se tornam aterrotizados pelo conhecimento, escravo de seus pensamentos. Sua ação paraliza, por tudo aquilo que se acumulou. Escassos são aqueles que, ao tomar consciência, buscam agir, seja da forma que for, mas lutam corajosamente para mudar algo ou, quem sabe, para melhorar uma situação.
Há que se ter o cuidado para não ser um teórico da vida, pensar que o que já se sabe basta. Sempre terão novas situações para balançar nossos valores e crenças. Por isso quem tem medo do saber não está aplicando criativamente o que aprendeu.
Não se canse de saber, descobrir algo é uma dádiva. Embora seja doloroso em diversas situações, a ignorância é certamente mais letal, corroendo a mente e a alma dos corações desavisados. Quando se descobre algo e existe um desejo de superar aquilo que o conhecimento despertou de sofrido, a vida se torna maia rica e nos sentimos mais confiantes para adentrar no universo de corpo inteiro. Pobre daqueles que não querem aprender, e mais lamentável ainda os que sabem que podem descobrir muito mais porém hesitam por temor ou acomodação.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
A dança do acasalamento- parte final
Quando se está apaixonado e o seu alvo não percebe isso, a cabeça do apaixonado começa a girar em torno de como e quando esse sentimento deve ser anunciado. Com a escassez de tempo da época contemporânea, fica cada vez mais difícil encontrar uma brecha romântica para desovar os afetos guardados.
Imagine só, você chega de manhã, a pessoa lhe cumprimenta e você, sutilmente:
- Você é tudo pra mim! (tom apaixonado)
A amada, que nem acordou ainda, responde:
- O que foi? Tô com sono. Nem ouvi direito o que tu falaste.
- Falei que hoje ta bem abafado, calor do cão... (depois da resposta dela não deixa de ser verdade essa frase).
Ou então no almoço, enquanto comem aquele xis gordurento, você lá pelas tantas:
- Tu estás linda! Ela, ainda mastigando o monstro alimentar, diz:
- Tu sabe que hoje eu estou me achando uma baranga gorda?
Imagine só, você chega de manhã, a pessoa lhe cumprimenta e você, sutilmente:
- Você é tudo pra mim! (tom apaixonado)
A amada, que nem acordou ainda, responde:
- O que foi? Tô com sono. Nem ouvi direito o que tu falaste.
- Falei que hoje ta bem abafado, calor do cão... (depois da resposta dela não deixa de ser verdade essa frase).
Ou então no almoço, enquanto comem aquele xis gordurento, você lá pelas tantas:
- Tu estás linda! Ela, ainda mastigando o monstro alimentar, diz:
- Tu sabe que hoje eu estou me achando uma baranga gorda?
Bééé! Tente outra vez!
Na aula ou no trabalho é melhor ainda. Ela está em apuros e pede cola, logo a ideia surge e você escreve no papel:
- A resposta é que estou vidrado em você. Ela devolve o papel, incisiva:
- Deixa de ser engraçadinho e me dá logo a resposta.
Vocês estão se despedindo de um dia duro e cansativo, a última chance é agora:
- Hum, ô guria , tá afim de sair qualquer dia desses?
Antes da resposta toca o telefone, ela atende com toda calma, é a amiga de longa data:
- E aí sua cadela! Que saudade de ti, blá, blá, blá...
Nesse momento o cara se sente tão ansioso, mas tão ansioso, que se sente como se estivesse esperando Deus dar o sinal positivo para sua entrada triunfante no céu.
Ele, com a cabeça virada e muito indignado, espera o diálogo vital para a o seu mundo, dando aquele riso estilo “quero te enganar, sua fazida, mas estou tendo que engolir tudo isso que estou pensando nesse momento”.
Ela desliga o telefone, fala que está atrasada e tem que ir. Ele se desespera:
Tá, mas e o convite? Aceita ir?
- De sair um dia desses? Claro. Com todo o prazer. Faz tempo que eu e meu namorado não saímos e ele está bem entediado, só em casa comendo e transando comigo, sabe como é né?
- Sei perfeitamente (coração partido e esfacelado), mulher que fica em casa acaba ficando meio balofa, não é verdade, amiga? (sorriso maroto)
- Aí amigo, eu te adoro, viu?
- Que nada, você que é tudo de bom.
Doce, doce...
Quando a coisa dá certo geralmente a pessoa que foi assediada desabafa:
- Era a coisa que eu mais queria na vida.
Se era a coisa que mais se queria na vida, por que passar tanto tempo sem nem ao menos tentar algo, só esperando algo acontecer?
Será que passamos boa parte da existência guardando herméticamente o que mais queremos na vida?
Na aula ou no trabalho é melhor ainda. Ela está em apuros e pede cola, logo a ideia surge e você escreve no papel:
- A resposta é que estou vidrado em você. Ela devolve o papel, incisiva:
- Deixa de ser engraçadinho e me dá logo a resposta.
Vocês estão se despedindo de um dia duro e cansativo, a última chance é agora:
- Hum, ô guria , tá afim de sair qualquer dia desses?
Antes da resposta toca o telefone, ela atende com toda calma, é a amiga de longa data:
- E aí sua cadela! Que saudade de ti, blá, blá, blá...
Nesse momento o cara se sente tão ansioso, mas tão ansioso, que se sente como se estivesse esperando Deus dar o sinal positivo para sua entrada triunfante no céu.
Ele, com a cabeça virada e muito indignado, espera o diálogo vital para a o seu mundo, dando aquele riso estilo “quero te enganar, sua fazida, mas estou tendo que engolir tudo isso que estou pensando nesse momento”.
Ela desliga o telefone, fala que está atrasada e tem que ir. Ele se desespera:
Tá, mas e o convite? Aceita ir?
- De sair um dia desses? Claro. Com todo o prazer. Faz tempo que eu e meu namorado não saímos e ele está bem entediado, só em casa comendo e transando comigo, sabe como é né?
- Sei perfeitamente (coração partido e esfacelado), mulher que fica em casa acaba ficando meio balofa, não é verdade, amiga? (sorriso maroto)
- Aí amigo, eu te adoro, viu?
- Que nada, você que é tudo de bom.
Doce, doce...
Quando a coisa dá certo geralmente a pessoa que foi assediada desabafa:
- Era a coisa que eu mais queria na vida.
Se era a coisa que mais se queria na vida, por que passar tanto tempo sem nem ao menos tentar algo, só esperando algo acontecer?
Será que passamos boa parte da existência guardando herméticamente o que mais queremos na vida?
sábado, 2 de janeiro de 2010
A dança do acasalamento -parte 1
Ah, o jogo da sedução. Evento sempre fascinante. As regras são claríssimas, ao menos parecem ser. Antes de se aproximar você tem que expressar um amor superlativo e dedicação máxima para o seu alvo de investimento. Ela é a mais linda, inteligente e sensacional. Tudo exagerado desse jeito, para você descobrir mais adiante que foi apenas mais uma atitude exagerada sua e que você nunca aprende a ver as coisas como elas são. Na questão da aproximação, receber uma negativa corresponde à morte imediata. De repente a morte pode ser mais amena que uma rejeição, vai saber.
Os lábios começam a tremer, embrulhando as palavras, como um empacotador de supermercados inexperiente, geralmente aplicando a tática mais usual, nos casos de encontro em locais públicos:
- Hum, vamos dar uma volta? Se a menina em questão fosse uma pessoa que desejasse desestabilizar o nosso guerreiro diria:
- Para que dar uma volta? A gente vai chegar ao mesmo lugar em que estamos, e não há nada para se ver aqui. Mas geralmente essa fase é mais tranqüila. Ela só pergunta:
- Por que?
- Porra, não vê que eu quero te beijar sua tonta? Três horas prestando atenção, conversando elogiando, pagando coisas só pra você. É pedir demais? Na vida real ele apenas diz:
- É bom dar uma volta para pegar um pouco de ar puro.
Ar puro é patético, mas continua sendo uma das únicas alternativas socialmente viáveis nessas situações. No caminho da volta ele se ensaia:
- Então, sei lá, assim...essas palavras indicam algum pedido que a pessoa tem vergonha de fazer, mas mesmo assim insiste em tentar. Para complicar, a menina, que de boba não tem nada ainda provoca:
- O que houve? Tu está tão estranho? Como se não soubesse da fissura do coitado.
Então o cara pensa:
- Bom , que se fôda, eu tô aqui e é agora ou nunca. Ele respira fundo, toma fôlego, balbucia algumas palavras, que nem ele nem ela entenderão o sentido exato, e parte pra cima. Feito. Missão cumprida.
Depois de quatro horas, uma fome danada, vontade de ir ao banheiro, o beijo acontece. Pensamentos fervilham, agora é hora de puxar papo para encobrir o mal estar causado. Pensa, pensa em algo:
- Pô, tu viu aquele vídeo no you tube? É muito tri.
- Tu viu o perfil da Nandinha no Orkut? Que viagem!
Não pode ser algo muito profundo. Atenção! A profundidade geralmente afunda essas aproximações iniciais, por mais profunda que a pessoa seja. Vai entender...
A cena se repete com os casais que acabaram de se beijar: ele dá um sorriso largo de alívio e ela fica sem graça, com cor de vinho de tinto, porém com coragem e cara de pau para questionar o intrépido galã:
- Por que tu demoraste tanto pra me pedir um beijo? Pensei que nem estivesse afim ...
Nós merecemos mesmo.
Os lábios começam a tremer, embrulhando as palavras, como um empacotador de supermercados inexperiente, geralmente aplicando a tática mais usual, nos casos de encontro em locais públicos:
- Hum, vamos dar uma volta? Se a menina em questão fosse uma pessoa que desejasse desestabilizar o nosso guerreiro diria:
- Para que dar uma volta? A gente vai chegar ao mesmo lugar em que estamos, e não há nada para se ver aqui. Mas geralmente essa fase é mais tranqüila. Ela só pergunta:
- Por que?
- Porra, não vê que eu quero te beijar sua tonta? Três horas prestando atenção, conversando elogiando, pagando coisas só pra você. É pedir demais? Na vida real ele apenas diz:
- É bom dar uma volta para pegar um pouco de ar puro.
Ar puro é patético, mas continua sendo uma das únicas alternativas socialmente viáveis nessas situações. No caminho da volta ele se ensaia:
- Então, sei lá, assim...essas palavras indicam algum pedido que a pessoa tem vergonha de fazer, mas mesmo assim insiste em tentar. Para complicar, a menina, que de boba não tem nada ainda provoca:
- O que houve? Tu está tão estranho? Como se não soubesse da fissura do coitado.
Então o cara pensa:
- Bom , que se fôda, eu tô aqui e é agora ou nunca. Ele respira fundo, toma fôlego, balbucia algumas palavras, que nem ele nem ela entenderão o sentido exato, e parte pra cima. Feito. Missão cumprida.
Depois de quatro horas, uma fome danada, vontade de ir ao banheiro, o beijo acontece. Pensamentos fervilham, agora é hora de puxar papo para encobrir o mal estar causado. Pensa, pensa em algo:
- Pô, tu viu aquele vídeo no you tube? É muito tri.
- Tu viu o perfil da Nandinha no Orkut? Que viagem!
Não pode ser algo muito profundo. Atenção! A profundidade geralmente afunda essas aproximações iniciais, por mais profunda que a pessoa seja. Vai entender...
A cena se repete com os casais que acabaram de se beijar: ele dá um sorriso largo de alívio e ela fica sem graça, com cor de vinho de tinto, porém com coragem e cara de pau para questionar o intrépido galã:
- Por que tu demoraste tanto pra me pedir um beijo? Pensei que nem estivesse afim ...
Nós merecemos mesmo.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
O veneno da ousadia no natal e no ano novo
Natal e ano novo: algumas considerações
1- Obrigação de festejar: esse imperativo de celebrar essas datas faz com que muitas pessoas fiquem reunidas no mesmo lugar de forma forçada e compulsória, tornando muitos encontros pessoais duros e sem sentido. Simplesmente pelo fato de que ninguém realmente planejou estar de corpo inteiro naquele momento. Além disso, quem não está com um humor eufórico e intensamente alegre é excluído sutilmente com comentários maliciosos: “quem trouxe essa pessoa aqui, o que essa pessoa tem, nossa, ele está tão mal”. O pior de tudo é quando se está passando por um momento difícil na vida e então é necessário colocar uma pedra por cima de tudo, atropelar seus sentimentos porque “é tempo de comemorar”...
2- Presentes – a sociedade conseguiu incutir na cabeça do ser humano a ideia de que os presentes são mais importantes que o afeto que os motivam. Pobre da criança que tem o carinho dos pais e não recebeu presentes, não é mesmo?
3- Aceleração frenética esquizofrênica- Nessa época todos correm para tudo. Como os dias entre o natal e o ano novo não existem, a maioria faz malabarismos para estar em dia com as suas obrigações. Fila pra presentes, contas, almoço, supermercado, calor, aglomeração, tontura e desespero. Todos irritados, sem paciência e prontos para viverem o natal...em suas casas. Patrolando os estranhos e pregando o amor e a solidariedade do nascimento de Cristo.
4- Concentração- Se você está estudando ou trabalhando em algo importante, desista! Existem coisas mais importantes para serem feitas. Qualquer coisa é mais importante que você mesmo, você ainda não aprendeu isso? Ainda?
5- Cobranças- Não existe um repertório muito criativo de assuntos abordados no meio familiar nessas celebrações. Vemos a predominância de temas extremamente irritantes, sempre em tom questionador: “e aí, vai se casar? Tá com emprego? Tá trabalhando em que mesmo? Vai comprar um carro? Vai viajar pra onde nas férias? E os filhos, quando virão”? Ou então cada um fica mostrando o quão é importante e merecedor de aplausos e elogios, num esforço comovente pra que todos o aplaudam de pé e coloquem rosas no chão que irá pisar.
6- Os sentimentos bons- somos tão cordeiros que tem gente que experiencia certas emoções apenas no natal e no ano novo. Fraternidade, abertura, sinceridade, carinho e afeição são fenômenos dessas épocas. Os otimistas pensam: “ao menos uma vez por ano eles sentem isso”. Os mais otimistas radicalizam: que tal sentir sem ser coagido”?
7- Comida- Finalizando com uma questão intrigante: se a comida desse período é tão boa, por que só se come uma vez por ano?
1- Obrigação de festejar: esse imperativo de celebrar essas datas faz com que muitas pessoas fiquem reunidas no mesmo lugar de forma forçada e compulsória, tornando muitos encontros pessoais duros e sem sentido. Simplesmente pelo fato de que ninguém realmente planejou estar de corpo inteiro naquele momento. Além disso, quem não está com um humor eufórico e intensamente alegre é excluído sutilmente com comentários maliciosos: “quem trouxe essa pessoa aqui, o que essa pessoa tem, nossa, ele está tão mal”. O pior de tudo é quando se está passando por um momento difícil na vida e então é necessário colocar uma pedra por cima de tudo, atropelar seus sentimentos porque “é tempo de comemorar”...
2- Presentes – a sociedade conseguiu incutir na cabeça do ser humano a ideia de que os presentes são mais importantes que o afeto que os motivam. Pobre da criança que tem o carinho dos pais e não recebeu presentes, não é mesmo?
3- Aceleração frenética esquizofrênica- Nessa época todos correm para tudo. Como os dias entre o natal e o ano novo não existem, a maioria faz malabarismos para estar em dia com as suas obrigações. Fila pra presentes, contas, almoço, supermercado, calor, aglomeração, tontura e desespero. Todos irritados, sem paciência e prontos para viverem o natal...em suas casas. Patrolando os estranhos e pregando o amor e a solidariedade do nascimento de Cristo.
4- Concentração- Se você está estudando ou trabalhando em algo importante, desista! Existem coisas mais importantes para serem feitas. Qualquer coisa é mais importante que você mesmo, você ainda não aprendeu isso? Ainda?
5- Cobranças- Não existe um repertório muito criativo de assuntos abordados no meio familiar nessas celebrações. Vemos a predominância de temas extremamente irritantes, sempre em tom questionador: “e aí, vai se casar? Tá com emprego? Tá trabalhando em que mesmo? Vai comprar um carro? Vai viajar pra onde nas férias? E os filhos, quando virão”? Ou então cada um fica mostrando o quão é importante e merecedor de aplausos e elogios, num esforço comovente pra que todos o aplaudam de pé e coloquem rosas no chão que irá pisar.
6- Os sentimentos bons- somos tão cordeiros que tem gente que experiencia certas emoções apenas no natal e no ano novo. Fraternidade, abertura, sinceridade, carinho e afeição são fenômenos dessas épocas. Os otimistas pensam: “ao menos uma vez por ano eles sentem isso”. Os mais otimistas radicalizam: que tal sentir sem ser coagido”?
7- Comida- Finalizando com uma questão intrigante: se a comida desse período é tão boa, por que só se come uma vez por ano?
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